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25 setembro, 2010

Conversas na cozinha...(5)

Estamos felizes por retornar ao Brasil. Beatriz e Laura não disfaraçam em nada. A ansiedade é tamanha que até dor de barriga tiveram. Ontem , no último dia de aula aqui na Suécia, despediram-se dos coleguinhas e das professoras e foi em mim que o nó na garganta brotou.

Bandeira do Brasil pintada por Laura na escola.
Tema de estudo : "Quem sou eu", tão bem aprendido por ela nestes dias de despedida.


Este semestre, elas estavam muito bem na escola. Inclusive a Beatriz que no início, apresentou dificuldades de adaptação. Estava falando (um pouco) e compreendendo o inglês durante as aulas, resignificando o conteúdo a ponto de chegar em casa, me contando tudo que aprendera. E o melhor: sempre muito feliz e satisfeita. A Laurinha então…. aprendeu com maior facilidade fazendo um bom uso da língua. Outro dia, na saída da aula, conversou com a professora para contar-lhe de um ocorrido com um coleguinha de sala com tranquilidade e graça (e que graça, rs….). Eu babei!



Cartão da turma,
entregue à Beatriz em seu último dia de aula.

A cada cantinho em que vamos nestes últimos dias, aproveitamos ao máximo querendo como que sugar o cheiro, as cores e o jeito do lugar, como forma de memorizar o que agora não teremos mais. Tudo parece ter mais sentido. Um misto de sensações e imagens mentais.

Por que tem que ser assim? Por que tudo passa a ter mais valor, quando perdemos ou nos distanciamos? Sei que quando chegar ao Brasil , todos os momentos vividos aqui, parecerão mais intensos, mais significativos apesar de algumas dificuldades enfrentadas no caminho. Tudo parecia tão irrelevante se comparado com a dimensão da experiência que iria viver....



Desenho da Bia que encontrei na pasta de
atividades recebidas da escola ontem.

A partir desta viagem, sinto que sou mais capaz, de me desapegar e assentar em outro lado qualquer. O fascínio por outras culturas, fez-me acreditar que mudar é preciso. É um desperdício, o imenso espaço que temos disponível para conhecer e hoje, vejo que pra mim este é um privilégio que não posso deixar de celebrar.




No caderno de atividades da escola,
Laura adorava desenhar a família.
FAMÍLIA: Tudo o que vivemos aqui.....

Passou rápido o tempo, mais do que eu pude assimilar, talvez por esse mau relacionamento que passei com a adaptação. Mas agora é diferente. É provável que sinta saudades bem rápido. É claro que sim!



24 junho, 2010

Eu - e - minhas filhas na escola.

Desde que decidimos vir em família , eu tinha a plena certeza que embarcariam comigo muitas preocupações. Uma delas seria o ambiente social e "acadêmico" das meninas .

Ainda no Brasil buscando informações sobre pré escolas na Suécia, optamos pelo IPSL- International Pré School of Lund- por ser particularmente destinada a pais e filhos que vivem temporariamente no país. Seu currículo permite uma transição mais suave e menos traumática para a criança . A língua é o inglês e os alunos tem o contato diário com diferentes culturas pois a escola recebe crianças do mundo inteiro.

Grande mural na entrada da escola identifica os alunos de diferentes países.


Tenho frequentado as salas diariamante e percebo que todos são respeitados e compreendidos mesmo que falando sua língua nativa. Laurinha por exemplo é muito tranquila, tudo pra ela está bom. A professora comenta que ela brinca conversando em português com os colegas.

- Aisha, vem brincar comigo de baldinho?

Aisha e outras meninas que fez amizades saem para acompanhá-la e brincam como se estivessem falando o mesmo idioma. É incrível como as crianças nos dão uma lição. Aqui a língua ultrapassa fronteiras quando o assunto é "ser criança." Acredito que aos poucos irá aprender o básico para se comunicarem integralmente mas o importante é que agora a escola para ela não é motivo de sofrimento.

Já para Beatriz, a mais velha, ainda me preocupo pois é uma criança que aprecia ir a escola, lê e escreve convencionalmente desde os cinco anos porém é tímida e reservada. Sua adaptação já é mais duradoura e "sofrida". Consegue ainda que tão pequena carregar com ela o stress de não dominar a língua, da incompatibilidade de ensino e consequentemente o da insegurança. Estamos sempre buscando acalmá-la quando compara o ensino daqui com o da escola que estava, quando diz que não quer almoçar mas a professora não compreende o que ela fala ou quando simplesmente tem saudade de ler em voz alta para os colegas.

Bia desenhada por mim e eu por ela.
Dia em que participei da aula , março de 2010.

Confesso que eu também demorei para compreender algumas coisas. Ainda que não comente com elas, me incomodava ver as crianças frequentando o parque da escola por mais de 1h diária- e isso é regra- faça sol, garoa, temporal, neve, caia pedra ou o que o céu desejar para aquele dia... Não importa!

A educação por aqui prioriza o contato da criança com a natureza e há até pré escolas que são ao ar livre o tempo todo. O amor do País com a natureza é revelado através da sua preocupação com o meio ambiente. Há ainda clubes e instituições que organizam atividades ao ar livre como uma espécie de escola da natureza e se estamos falando de educação este assunto não pode faltar por aqui. Penso que o mais curioso ainda é o fato de estranhar o contato dos pequenos com o que temos de mais precioso e de graça neste mundo. Esta é uma lição que vou carregar comigo enquanto mãe e educadora.

Outro fato curioso (e bastante aplaudido por mim) é que os pais dividem as tarefas da escola com todas as outras famílias , educadores, coordenadores e diretora. Semanalmente recebemos um jornalzinho com a descrição de todo o trabalho pedagógico desenvolvido e a desenvolver nas diferentes turmas segundo o planejamento de cada professor. Os pais podem contribuir com os projetos motivando seus filhos a ir ao encontro do objeto de estudo descrito no documento. Há ainda dias em que somos convidados a participar da rotina dos filhos na sala de aula. Tudo é realizado com transparência e as crianças percebem o quanto aquele espaço é também importante e valorizado pelos pais. A escola não é apenas um lugar para "guardar" os pequenos enquanto as famílias estão ausentes.

Hora do lanche e Laurinha com a Bia conhecendo a escola.

A limpeza do prédio também é feita pelas famílias. Há uma escala no mural de entrada com divisão de tarefas e muito trabalho para deixar o espaço de aprendizagem dos filhos mais harmonioso e agradável. Os que ali frequentam buscam manter o local limpo preservando o que é do coletivo . Pra vocês verem que continuo aprendendo neste País... Com tudo!

Neste momento as meninas estão em férias. Em agosto um novo ano letivo se inicia. Laurinha continuará na mesma escola mudando apenas de turma. Bia que ainda estava em adaptação, agora com seis anos não mais poderá frequentar a pré escola. Foi matriculada no ISLK -Katedralskolan e terá que enfrentar mais de perto outros desafios. Soube que em seu currículo irá participar semanalmente de aulas de português ( ela gostou). Duas de suas amigas da antiga escola estarão com ela em mais esta jornada. E é claro eu e o pai o tempo todo. Torçam por nós!